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terça-feira, 23 de agosto de 2011

"As mãos do homem na natureza"


“A memorável história de uma rainha”
     Sofia era uma professora de filosofia muito preocupada com o caráter dos seus alunos. Gostava de ler jornais, mas volta e meia estourava um escândalo na imprensa envolvendo corrupção de políticos, vantagens em licitações, fraudes, tráfico de influência. Sabia que havia líderes sérios e comprometidos com a sociedade, mas tinha consciência de que somente uma safra de jovens transparentes, amantes da honestidade e fiéis à sua consciência poderia mudar os pilares da sociedade.
Certa vez, mais um escândalo estourou na imprensa envolvendo o presidente do país e seus principais assessores. Ela ficou preocupada com as conseqüências desse escândalo no inconsciente coletivo da juventude. Poderia desanimá-los a se tornarem líderes sociais, a não terem esperança na sua nação e poderia até bloquear seus sonhos.
     No outro dia, perguntou o que os alunos pensavam dos políticos. A visão pessimista dos jovens a assustou. Uns responderam que era a melhor maneira de ganhar dinheiro,outro disse que raramente algum presta e ainda outros diziam que todos eram farinha do mesmo saco. Alguns ainda disseram que, quando crescessem, queriam ser políticos, para levar vantagem em tudo.
Preocupadíssima, ela disse que corrupção havia em todos os países, o que diferia era a freqüência e intensidade do procedimento.
      — Uma pessoa corrupta — disse ela — é egocêntrica, individualista, não tem tranqüilidade, possui uma dívida impagável com sua própria consciência. Uma pessoa corrupta nunca será um grande líder social, pois não é líder de si mesma.
     Querendo treinar o caráter dos seus alunos, ela contou-lhes uma fascinante história que mudaria para sempre a visão de muitos deles.
Há muitos anos um poderoso e inteligente príncipe queria encontrar a mulher da sua vida. Seu pai estava doente e ele estava para se tornar rei. Porém, não queria errar na escolha, afinal de contas a jovem com quem se casaria se tornaria a rainha. Sonhava que quem reinasse com ele fosse gentil, dócil, amável e principalmente transparente.
      O maior medo do futuro rei era de que a mulher com quem se casasse valorizasse mais seu reino do que ele mesmo, mais os privilégios da corte e seus tesouros do que o seu amor. Os ministros do reino consideravam a preocupação do príncipe imatura. Alguns o achavam frágil e pouco inteligente, indigno da coroa.
      Consultou os sábios para saber como não errar nessa decisão tão importante. Os sábios disseram que ele deveria casar-se com uma jovem riquíssima do próprio reino ou, melhor ainda, deveria desposar a filha de um poderoso rei de outra nação. Assim, alargaria suas fronteiras.
      O reino estava envolvido em disputas internas malévolas. Devido à doença do rei, alguns ministros, generais, coletores de impostos aproveitaram a situação para se corromper, disse a professora de filosofia. Em seguida, adicionou:
      — A falta de liderança é um canteiro para o individualismo.
      Escolher a futura rainha era importante para manter a unidade do reino. Muitos achavam que se o príncipe não mostrasse inteligência para encontrar sua esposa, não teria inteligência para governar seu reino.

Encontrando a resposta na natureza     Desanimado com os conselhos que lhe deram, o príncipe saiu pelos campos a pensar. Depois de horas de meditação, caiu-lhe algo na cabeça. Levou as mãos para ver o que era e ficou fascinado, era uma semente amarela e pequena. De repente, veio-lhe a euforia, pois encontrara sua resposta. Parecia embriagado de alegria.
      Resolveu promover uma festa para que as moças interessadas em casar-se com ele pudessem apresentar-se. Foram convidadas jovens de vários outros reinos, bem como as do seu território, especialmente as mais ricas.
      Trabalhava no castelo, como serva, uma senhora que tinha uma linda e singela filha, chamada Priscila. Quando comunicou a Priscila que o príncipe iria casar-se e que ele daria uma grande festa para escolher a noiva, ela disse que se apresentaria como candidata. Priscila o admirava sem o conhecer pessoalmente, pois sua mãe sempre contava sobre a bondade, simplicidade e inteligência do jovem herdeiro.
      Urna mulher rica do reino, cuja filha participaria do concurso, ficou sabendo da intenção de Priscila. Chamou-lhe a mãe e, com arrogância, disse-lhe:
      — Sua filha está delirando, sonhando com o impossível!
      A filha de uma serva jamais poderá ser uma rainha. É contra os princípios.
      Profundamente entristecida, mas achando que essa mulher estava correta, a mãe de Priscila comentou as frases cortantes que ouvira. A jovem, abalada, rebateu:
      — Mamãe, nós somos pobres, mas somos seres humanos!
      O dinheiro compra carruagens, mas não compra a felicidade, compra roupas tecidas com fios de ouro, mas não compra o valor de uma pessoa — falou a jovem com dignidade.
      Apesar de ser pobre, Priscila queria ser tratada com dignidade. Sabia que não tinha chance nenhuma de ser a escolhida, mas queria aproveitar a oportunidade para ficar perto do príncipe. Amava um desafio. Ela possuía uma beleza interior que contagiava as pessoas. Muitas jovens ricas gostavam de ficar perto dela.
      — Priscila tinha três jóias que valiam mais que diamantes: simplicidade, generosidade e transparência - disse Sofia. E perguntou para toda a classe: — Quais dessas jóias vocês possuem?
     Os alunos ficaram pensativos. Em seguida, a professora continuou contando sua história. Disse que algumas jovens filhas de lordes eram boas alunas, conseguiam notas altas nas provas, mas simulavam seus comportamentos. Ninguém sabia o que elas realmente pensavam ou sentiam. Gostavam de se exaltar e contar vantagens, em busca das migalhas dos aplausos. Algumas mentiam até para si mesmas.
     Entre essas jovens estavam Helena e Barbie. Ela conheciam Priscila e tinham inveja dela, não admitiam que , filha de um camponês com uma empregada do palácio fosse tão sociável e cativante. Duas semanas antes do concurso, elas a encontraram e a estimularam a participar dele. Pareciam estar sendo generosas.
     Na realidade, estavam simulando sua verdadeira intenção. Queriam que Priscila fosse zombada publicamente.

 Um desafio aparentemente simples
     O grande dia chegou. Centenas de jovens finamente trajadas estavam no saguão do grande palácio. Ao ver Priscila e observar seu vestido de cima a baixo, algumas jovens não contiveram seu sorriso de deboche. Aparentemente seu vestido era o mais simples e o mais feio. Helena e Barbie se aproximaram uma da outra e disseram:
     — Coitada! Descobriram a boba da corte.
     Priscila ouviu que estavam zombando dela e entendeu afinal qual era a verdadeira intenção delas.
     De repente, ao som de trombetas, o príncipe apareceu com seus ministros, generais e sábios do reino.   Todas as jovens suspiraram. Ninguém sabia o que as aguardava. Nem os que rodeavam o príncipe sabiam como se daria o processo de escolha. Um momento solene de silêncio se fez. Subitamente o príncipe abriu a boca e aos brados lançou um desafio:
     — Cada uma de vocês receberá uma semente para ser cultivada. Daqui a três meses darei um grande baile. Aquela que me trouxer a mais linda flor será a escolhida para ser a rainha — disse o príncipe com singeleza e espontaneidade.
     Todas as moças acharam estranho o desafio do príncipe. Era muito simples a tarefa. Animadas, a maioria saiu do palácio convicta de que receberia a coroa. Os sábios e os ministros do reino menearam a cabeça achando que realmente o jovem era despreparado para governar. Jamais viram um príncipe tão ingênuo e destituído de inteligência. Um cargo tão grande merecia um desafio à altura, pensaram.
     Várias pretendentes, julgando-se espertas, entenderam que o príncipe pretendia na verdade era que o estilo dos cabelos, das vestes e dos movimentos do corpo fossem tão belos como uma flor.

O drama de Priscila
     Priscila pegou a sua semente, plantou-a num vaso e, apesar de pouco entender de jardinagem, cuidava da terra com muita paciência e ternura. Sonhava com a planta que nasceria e com a belíssima flor que dela surgiria. Às vezes, libertava sua imaginação e sentia até seu perfume.
     Passou-se uma semana e a planta não nasceu. Priscila ficou preocupada. Regava mais ainda, deixava cair a cada hora algumas delicadas gotas de água. Duas semanas se passaram e o broto não surgiu. A moça esmerou-se ainda mais nos seus cuidados. Aconselhou-se com pessoas experientes.
     Alguns jardineiros disseram que a semente não nasceu porque ela colocou muita água, outros, adubo em excesso, e ainda outros porque compactou demais a terra do vaso. Todos foram unânimes em dizer que, independente da causa, se a semente não eclodiu em quinze dias dificilmente nasceria. Desesperada, via seu sonho cada vez mais distante. Apesar da frustração, não conseguia dissipar seu amor pelo príncipe.
     Um mês se passou e o vaso continuava sem vida. Enquanto derramava as gotas de água, as gotas de lágrimas também caíam no recipiente. Dois meses se passaram e seu coração estava partido. A flor não brotou e seu coração se entristeceu.
     Sofia fitou os olhos dos seus alunos e disse-lhes:
     — Algumas pessoas aconselharam que ela plantasse outras sementes. Afinal de contas, ninguém descobriria.
      O que vocês fariam? Plantariam outras sementes? Vale a pena obter o sucesso a qualquer preço?
     Alguns na classe acharam que não havia mal algum em plantar outra semente. Segundo eles, os fins justificam os meios. Mas Priscila rejeitou essa ideia.
     Três meses se passaram e o pequeno vaso continuava estéril, sem vida. Vendo-a abatida, as pessoas próximas aconselharam que ela jamais retornasse ao concurso. Todos sabiam que Priscila era gentil, mas, ao mesmo tempo, determinada e teimosa. Depois de muito meditar e de estar consciente de que fez de tudo ao seu alcance, disse, para espanto de todos, que iria ao baile e levaria seu vaso, mesmo sem planta.
     — É loucura! — diziam os amigos.
     — Será um vexame! — diziam os parentes.
     Sua mãe fez um último esforço para ela não retornar ao palácio. Vendo a dor da mãe, Priscila derramou novamente algumas lágrimas que borraram a sua maquiagem e molharam seu vestido simples. Para consolar a mãe, disse-lhe:
     _ Poderei passar vergonha mais uma vez, mamãe, mas serei honesta comigo mesma. Não consegui cultivar a semente e vou assumir meu erro.
     Quando chegou ao baile, perturbou-se muitíssimo. Viu todas as outras pretendentes segurando vasos com as mais lindas flores, uma mais linda do que a outra. Os vestidos combinavam com as cores das pétalas. Era algo sublime.
      Ao ver Priscila, mais uma vez, várias pretendentes debocharam dela. Dessa vez o deboche foi mais aparente. Deram gargalhadas incontroladas, não apenas porque não possuía jóias e seu vestido era simples e fora de moda, mas porque seu vaso não tinha flor não possuía vida. Humilhada, começou a entrar em pânico e pensou em desistir.
      De repente, as cornetas tocaram triunfalmente. Todas ficaram em profundo silêncio. Quando o príncipe chegou, elas suspiraram. Ele pediu para que elas formassem filas. Elas, eufóricas, enfileiraram-se. O príncipe se aproximou de cada uma delas. Olhava para seus olhos e para a formosura da flor. Em seguida, perguntava seus nomes.
      Quando chegou diante de Priscila e viu o vaso sem flor e seu vestido com gotas de lágrimas, meneou a cabeça e nem sequer seu nome perguntou. As moças que estavam próximas colocaram seus lenços na boca para que não se ouvisse o som das suas risadas.
      Os líderes do reino observavam atentamente os gestos do príncipe e se entreolhavam. Depois de três horas, e de analisar flor por flor, o príncipe sentou-se no seu trono. Em seguida, pediu que as moças fizessem uma grande roda no salão nobre do palácio. Disse que sua decisão tinha sido tomada e que a jovem que ele tirasse para dançar seria a escolhida.
Além das moças e dos líderes do reino, havia reis e nobres na lateral do salão torcendo por suas filhas. Chegou o grande momento.

As pessoas transparentes fazem a diferença      A professora de filosofia, mais uma vez, dirigiu-se aos seus alunos e perguntou:
     — Quem o príncipe escolheria? Que parâmetro usaria para encontrar sua rainha?
     Os alunos ficaram perdidos. Não tinham respostas. Estavam ansiosos para saber qual era a decisão. Sofia continuou. O príncipe foi para o meio do salão. Passou seus olhos sobre a roda de mulheres e, para surpresa de todos, foi até a jovem que não tinha flor nenhuma no vaso, beijou suas mãos e, emocionado, disse-lhe:
     — Qual seu nome?
     Com os lábios trêmulos, ela lhe disse:
     — Priscila.
     — Minha rainha! Priscila, você aceita dançar comigo e ser minha esposa? — falou com suavidade.
     Priscila caiu em prantos. Todos estavam perplexos. O burburinho foi geral. Ninguém entendeu sua atitude. Os ministros e sábios achavam que o príncipe estava delirando. Os generais pensaram que ele estava brincando.
     Então, calmamente, explicou em voz alta:
     — Para se tornar uma rainha, é preciso cultivar uma flor muito especial: a flor da transparência, da cumplicidade, da honestidade diante de si mesma. Sem tal característica não é possível amar, governar, liderar, ser fraterno e justo. Todas as sementes que entreguei a vocês eram estéreis e delas não poderia nascer uma flor. Portanto, a única pessoa que foi transparente, enfrentou sua vergonha, frustração, deboche e provou seu amor incondicional por mim foi a Priscila.
      Em seguida, num momento de rara inspiração, ele completou:
      — Seu vaso não precisa de flor, pois ela representa a flor que não nasceu.
     Os sábios do reino ficaram boquiabertos, jamais viram tanta sabedoria. Os ministros, rígidos e interesseiros, ficaram assombrados com a inteligência de seu rei. Entenderam que estavam diante de um dos homens mais sublimes que já conheceram. Os demais presentes, inclusive a maioria das outras pretendentes caíram em aplauso. Aplaudiram a inteligência do rei e a sensibilidade e transparência da rainha.
     Priscila foi generosa com quem a maltratou, foi delicada com quem a perseguiu. Foi digna da coroa que carregava em sua cabeça, porque já havia um tesouro em sua personalidade.
Sabia que uma rainha não era mais importante do que um súdito, pois conhecia a dignidade de cada ser humano.
     Vários alunos na classe também estavam emocionados. Nesse clima de comoção, a professora Sofia lhes disse:
     — Nunca se esqueçam de que se vocês quiserem brilhar como alunos, como filhos e, no futuro, como excelentes profissionais e como líderes sociais, precisam cultivar todos os dias a flor da transparência.
A professora pegou um giz, dirigiu-se ao quadro-negro e escreveu:
     Bons alunos escondem certas intenções, mas alunos fascinantes são transparentes.
     Eles sabem que quem não é fiel à sua consciência tem uma dívida impagável consigo mesmo. Não querem, como alguns políticos, o sucesso a qualquer preço. Só querem o sucesso conquistado com suor, inteligência e transparência. E completou dizendo que, quem desenvolver o hábito da transparência, será um excelente debatedor de ideias, superará a timidez, refinará a sabedoria, influenciará pessoas, brilhará profissionalmente e mudará os rumos da sociedade. Ainda se alguns tentarem enterrar suas ideias, não se esqueçam de que as ideias são sementes e o maior favor que se faz a uma semente é enterrá-la.

    
Augusto Cury do livro Filhos brilhantes, alunos fascinantes.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

“Procure seus caminhos”
Mas não magoe ninguém nessa procura
Arrependa-se, Volte atrás, Peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz
Revolte-se quando julgar necessário
Alague seu coração de esperanças
Mas não se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, Volte!
Se perceber que precisa seguir, Siga!
Se estiver tudo errado, Comece novamente
Se estiver certo, Continue
Se sentir saudades, Mate-a
Se perder um amor, Não se perca!
Se o achar, Segure-o!"
(Fernando Pessoa)


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ostra Feliz Não Faz Pérola

“Ostras são moluscos, animais sem esqueletos, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, de pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas - são animais mansos - seriam uma presa fácil dos predadores”.

     Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem.
     Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas, saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário... Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste... As ostras felizes riam dela e diziam: "Ela não sai da sua depressão..." Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor.
     O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava o seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho - por causa da dor que o grão de areia lhe causava.
     Um dia passou por ali um pescador com seu barco. Lançou a sua rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-a para sua casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro da ostra. Ele tomou-a em suas mãos e deu uma gargalhada de felicidade; era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou a pérola e deu-a de presente para a sua esposa. Ela ficou muito feliz...”.
     Ostra feliz não faz pérolas. Isso vale para as ostras, e vale para nós, seres humanos.
As pessoas que se imaginam felizes simplesmente se dedicam a gozar a vida. E fazem bem. Mas as pessoas que sofrem, elas têm de produzir pérolas para poder viver. Assim é a vida dos artistas, dos educadores, dos profetas. Sofrimento que faz pérola não precisa ser sofrimento físico. Raramente é sofrimento físico.

Na maioria das vezes são dores da alma.


Rubem Alves
Teólogo, Doutor em Filosofia e Psicanalista.

Fernando Pessoa
     Fernando Pessoa (1888 - 1935) poeta e escritor português, nascido em Lisboa. É considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa e da literatura universal.
     Aos seis anos de idade, Fernando Pessoa foi para a África do Sul, onde aprendeu perfeitamente o inglês, e das quatro obras que publicou em vida, três são em inglês. Durante sua vida, Fernando Pessoa trabalhou em vários lugares como correspondente de língua inglesa e francesa. Foi também empresário, editor, crítico literário, jornalista, comentador político, tradutor, inventor, astrólogo e publicitário, e ao mesmo tempo produzia suas obras em verso e prosa.
     Como poeta, foi conhecido por suas múltiplas personalidades, os heterônimos, que eram e são até hoje objeto da maior parte dos estudos sobre sua vida e sua obra.
     Fernando Pessoa faleceu em Lisboa, com 47 anos de idade, vítima de uma cólica hepática causada por um cálculo biliar associado a cirrose hepática, um diagnóstico que hoje em dia é contestado por diversos médicos.
     Os principais heterônimos de Fernando Pessoa são:
     Alberto Caeiro, nascido em Lisboa, e era o mais objetivo dos heterônimos. Buscava o objetivismo absoluto, eliminando todos os vestígios da subjetividade.
     Ricardo Reis, nascido no Porto, representa a vertente clássica ou neoclássica da criação de Fernando Pessoa. Sua linguagem é contida, disciplinada e seus versos são, geralmente, curtos.
     Álvaro de Campos, nascido no Porto, é o lado "moderno" de Fernando Pessoa, caracterizado por uma vontade de conquista, por um amor à civilização e ao progresso. Campos era um engenheiro inativo, inadaptado e com consciência crítica.

Poesias selecionadas
Sossega coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
Fernando Pessoa, 2-8-1933.

Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?

Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.
Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?
Fernando Pessoa, 7-1-1935.